A nova geração é mesmo tão difícil?

Qual competência é a mais importante para conviver com a geração atual? 

Poucas gerações parecem ter sido tão rapidamente julgadas quanto a que hoje chega às universidades e ao mercado de trabalho. São chamados de mimados, frágeis, imediatistas, irresponsáveis. Diz-se que não respeitam os mais velhos, não aceitam hierarquia, não sabem receber críticas, não querem trabalhar e esperam que o mundo se adapte às suas vontades. Há certamente comportamentos que justificam algumas dessas preocupações. O problema começa quando características observadas em determinados jovens se transformam em uma espécie de diagnóstico de toda uma geração.

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O conflito entre gerações não é novo. Os mais velhos quase sempre olham para os mais jovens a partir dos valores com os quais foram educados e tendem a utilizar a própria trajetória como medida. “Na minha época” é uma expressão reveladora. Na minha época, suportávamos mais, obedecíamos mais, começávamos de baixo, não questionávamos o chefe, respeitávamos os mais velhos. Tudo isso pode ser verdade. Mas existe uma pergunta anterior: o mundo no qual esses jovens estão crescendo é o mesmo no qual cresceram seus pais e avós? Evidentemente, não.

Tudo mudou… 

Estamos diante de uma geração formada em uma sociedade que passou por transformações extraordinariamente rápidas. A tecnologia não representa apenas um conjunto de novas ferramentas. Ela modificou a experiência do tempo, do espaço, do conhecimento e das relações humanas. Para as gerações anteriores, o ambiente social era predominantemente físico: a família, a escola, o bairro, a universidade, o trabalho. Para os jovens atuais, o ambiente virtual é também um espaço real de socialização, aprendizagem, trabalho, reconhecimento e construção de identidade. Eles transitam continuamente entre esses diferentes ambientes e desenvolvem competências que nem sempre são percebidas ou valorizadas pelos mais velhos.

Por que obedecer figuras de autoridade? 

Também cresceram em contato com outros valores. Foram estimulados a expressar opiniões, discutir regras, falar sobre sentimentos, defender diferenças e reivindicar maior coerência entre aquilo que as instituições afirmam e aquilo que efetivamente praticam. Por isso, comportamentos interpretados como falta de respeito podem, algumas vezes, expressar simplesmente uma relação diferente com a autoridade. Para muitos desses jovens, idade, cargo e posição hierárquica não garantem automaticamente legitimidade. O respeito precisa ser acompanhado de competência, coerência, confiança e reciprocidade. Isso pode incomodar quem aprendeu que respeitar significava, muitas vezes, obedecer sem questionar.

O mesmo ocorre com a relação com o trabalho. As gerações anteriores foram educadas para acreditar que dedicação significava permanência, disponibilidade e sacrifício. Trabalhar muito, permanecer muitos anos na mesma empresa e aceitar determinadas condições eram demonstrações de compromisso. Muitos jovens atuais não necessariamente compartilham dessa equação. Perguntam por que determinada tarefa precisa ser realizada daquela maneira, valorizam flexibilidade, desejam preservar a vida pessoal e estão menos dispostos a permanecer em ambientes que consideram abusivos ou sem propósito. É fácil interpretar essa postura como falta de compromisso. Talvez seja necessário perguntar se não estamos diante de uma redefinição do próprio conceito de compromisso.

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Naturalmente, nenhuma geração deve ser romantizada. A rapidez tecnológica pode favorecer impaciência. A disponibilidade permanente de estímulos pode dificultar a espera e a concentração. A comunicação digital pode produzir relações mais superficiais e reduzir experiências presenciais importantes.

Proteção demais desprotege

Jovens que cresceram recebendo excessiva proteção podem chegar à vida adulta menos preparados para lidar com frustrações. E o desejo legítimo de questionar a autoridade pode, eventualmente, confundir-se com dificuldade para reconhecer limites. Esses problemas existem e precisam ser discutidos. Reconhecê-los, entretanto, é muito diferente de transformar uma geração inteira em uma foto distorcida.

Há ainda uma contradição que merece atenção. Os adultos frequentemente criticam os jovens pelo resultado de uma educação que eles próprios ofereceram. Foram as gerações anteriores que colocaram computadores, celulares e tablets nas mãos das crianças; que organizaram agendas repletas de atividades; que procuraram protegê-las de riscos e frustrações; que passaram a perguntar mais sobre seus sentimentos e opiniões; que ensinaram que deveriam lutar por seus direitos e buscar realização pessoal. Não parece razoável educá-los para serem mais participativos, conectados e questionadores e depois censurá-los justamente porque se tornaram assim.

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Conflito de gerações ou… conflito de visões?

Talvez parte do chamado “conflito de gerações” seja, na realidade, um conflito entre diferentes maneiras de compreender o mundo. Quem cresceu antes da revolução digital precisou adaptar-se à tecnologia. Os mais jovens, ao contrário, desenvolveram-se dentro dela. Não conheceram um mundo sem internet, redes sociais, comunicação instantânea e acesso quase ilimitado à informação. Isso produz novas habilidades, mas também novas vulnerabilidades. Produz outras formas de atenção, de pertencimento, de relacionamento e até de percepção da realidade.

Nas organizações, insistir apenas em corrigir essa geração para que ela se comporte como as anteriores provavelmente será uma estratégia pouco inteligente. O desafio da liderança não é eliminar as diferenças geracionais, mas aprender a trabalhar com elas. Os profissionais mais experientes carregam conhecimento acumulado, memória institucional, capacidade de contextualização e experiências que não podem ser substituídas por velocidade tecnológica. Os mais jovens trazem familiaridade com novas linguagens, menor resistência à mudança, outras formas de colaboração e questionamentos que podem obrigar as organizações a rever práticas que continuavam existindo apenas porque “sempre foram assim”.

Geração atual: pior ou melhor?

Talvez, portanto, a questão não seja decidir se a nova geração é melhor ou pior. É diferente. E diferença costuma provocar desconforto antes de produzir aprendizagem. Os jovens precisam aprender com aqueles que vieram antes deles, inclusive que nem todo limite é autoritarismo, que responsabilidade exige constância e que frustração faz parte da vida. Mas os mais velhos também precisam aceitar que experiência não lhes confere o monopólio das boas respostas e que alguns valores que funcionaram no passado podem não responder às exigências do presente.

Qual competência é a mais importante para conviver com a geração atual?  Cada geração recebe um mundo construído pelas anteriores e, ao mesmo tempo, transforma esse mundo. Em vez de perguntar por que os jovens não são como nós fomos, talvez seja mais produtivo perguntar que tipo de sociedade os ensinou a ser como são — e o que podemos aprender uns com os outros. Afinal, compreender uma nova geração não significa concordar com tudo o que ela faz. Significa apenas substituir o preconceito pela curiosidade. E essa talvez seja uma das competências mais importantes para quem pretende conviver com os jovens atuais, em um mundo que continua mudando.

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.