Adultização de crianças

A adultização de crianças é um fenômeno em que meninas e meninos passam a ser tratados ou incentivados a agir como adultos antes do tempo, seja no comportamento, na forma de vestir ou nas responsabilidades; saiba as consequências desse comportamento

O youtuber Felipe Bressanim Pereira, de 27 anos, é o autor do vídeo “Adultização”. Felca, como ele é conhecido, é um influenciador digital, que publicou um vídeo denunciando a “adultização” de crianças e adolescentes nas redes sociais, em especial no contexto sexual do “funk”. Expõe situações concretas de exploração de menores por influenciadores. Ele menciona casos que ilustram a sexualização precoce, o envolvimento parental indevido e a exposição contínua do corpo da criança com conotações adultas.  

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Sabe-se que esse vídeo viralizou, com cerca de 30 milhões de visualizações. Ele explicou como os algoritmos promovem e repetem conteúdos de menores sexualizados; conectam pedófilos e permitem anúncios pagos do crime organizado.

A publicação de Felca trouxe impactos importantes. Depois dela, observou-se o aumento exponencial de denúncias de abuso infantil, de ativação social em torno do tema e de propostas nos discursos políticos, para proteção das crianças online, mediante a regulamentação das redes.

Sabe-se que a regulamentação das redes é um tema complexo, ambíguo e delicado. É preciso temer que iniciativas, por um lado louváveis nesse sentido de proteger as crianças e os adolescentes, calem por outro lado, a liberdade de expressão de forma generalizada e estejam a serviço de manobras ideológicas repressoras.

Observa-se que, nas redes digitais acessadas pelas crianças, ninguém assume a responsabilidade pelo conteúdo. E esse é um problema que acontece no mundo inteiro. Assim, resta e cabe aos responsáveis pelas crianças, principalmente aos pais, a função do controle do acesso de seus filhos menores às redes digitais.

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Nos dias de hoje, acontece que muitos pais, pressionados pelo trabalho profissional, ocupados com seus afazeres, pouco tempo têm para se dedicarem a essa função. Muitas crianças, nesse contexto, são negligenciadas ou terceirizadas a cuidados de outros, inclusive terceirizadas à web. Sozinhas, sem a supervisão de adultos responsáveis, as crianças ficam vulneráveis a todas as influências indesejáveis. Há pais que ignoram essa vulnerabilidade, por não estarem atentos e/ou não se importarem.

O tristemente interessante é que a cultura do “zero de telas” para bebês e crianças bem pequenas foi endossada por muitos pais, que seguem tal prescrição à risca, mas que depois, com o tempo, não supervisionam o conteúdo do que seus filhos maiores assistem, ainda que se preocupem com o tempo frente às telas.  

Cumpre ressaltar que existem situações, nas quais os próprios pais estimulam os filhos a se exporem nas redes, mostrando habilidades específicas, imitando celebridades adultas etc. É comum ver pais e responsáveis incentivando filhos a produzir conteúdos para internet (TikTok, Instagram) que envolvem danças sensuais ou comportamentos que não condizem com a infância.

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Existem ainda, pais que se beneficiam de seus filhos que, por exemplo, agem como empreendedores nas redes sociais sendo monetizados.

Adultização de crianças

A adultização de crianças é um fenômeno em que meninas e meninos passam a ser tratados ou incentivados a agir como adultos antes do tempo, seja no comportamento, na forma de vestir ou nas responsabilidades. No Brasil, há vários exemplos que mostram como isso ocorre há bastante tempo.

Na mídia, na publicidade, em comerciais de moda, marcas já lançam campanhas com crianças usando roupas ou poses que remetem à sensualidade adulta. Nos desfiles, as crianças usam maquiagem pesada, roupas sensuais e trejeitos adultos. Nas novelas e programas de auditório, crianças se apresentam com falas e comportamentos precoces, por vezes incentivadas a atuar de forma erotizada.

Brinquedos, roupas e até festas de aniversário seguem estilos “adultos”, como mini “baladas” para crianças ou festas temáticas de maquiagem e moda.

Essa pressão por parte da sociedade para que as crianças atuem como adultos tem sido criticada por causar transtornos ao desenvolvimento afetivo emocional delas. Perde-se a infância, perde-se a possibilidade da atividade lúdica, da atividade imaginativa, do jogo sem regras, do jogo apenas pelo prazer de brincar. Hoje percebe-se a intensificação de mais um risco na adultização precoce de crianças e adolescentes: a vulnerabilidade delas às práticas imorais, antiéticas e criminosas da sociedade, mediante as redes digitais.

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.