Como funciona o cérebro de quem se tornar pai 

O cérebro do pai se transforma à medida que mantém um  cuidado ativo com o bebê, tendo impacto positivo no desenvolvimento da criança; entenda como funciona essa sincronia          

Muita importância tem sido dada, há décadas, à relação mãe-bebê, salientando-se o papel de uma boa maternagem para o desenvolvimento saudável do filho, especialmente no que se refere ao chamado “apego seguro”. Sabe-se que a formação de um apego seguro com a mãe é fundamental para o estabelecimento de relações interpessoais saudáveis ao longo da vida.

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O cérebro da mãe se desenvolve biologicamente preparado para cuidar do filho. Ele se reorganiza quando a mulher se envolve com o bebê desde a gestação. Há mudanças nos níveis hormonais, e as redes neurais relacionadas ao cuidado e à empatia tornam-se mais ativas. Passa a existir uma sincronia na interação: os cérebros da mãe e do bebê começam a sincronizar suas atividades, e seus corpos entram em um sistema conjunto de funcionamento.

O cérebro do pai  

Ruth Feldman, psicóloga especializada em neurodesenvolvimento, desde 2017, tem direcionado seus estudos ao cérebro parental, incluindo, com ênfase, o conceito de “the father’s brain” (o cérebro do pai), em palestras ligadas ao Simms/Mann Institute. Suas pesquisas trazem uma ideia central consistente: o cérebro do pai não é fixo — ele se transforma com o cuidado ao bebê.

O cérebro masculino não nasce “programado” para cuidar do bebê como o da mãe. No entanto, é altamente plástico e adaptável, reorganizando-se biologicamente quando o pai se envolve com a criança. Ou seja, ser um pai ativo literalmente modifica o cérebro. Esse é um dos pontos-chave do conceito de father’s brain: o cuidar ativa o cérebro parental em ambos os pais.

Assim, o que define o “cérebro parental” não é apenas o sexo biológico, mas o tempo e a qualidade do cuidado oferecido ao bebê. Pais muito envolvidos apresentam níveis hormonais, como a oxitocina, semelhantes aos das mães, e seus circuitos cerebrais de empatia e cuidado tornam-se mais ativos.

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No contato com o bebê, a mãe tende a ativar mais os sistemas ligados à emoção e ao vínculo direto. Já o pai tende a ativar mais o sistema de mentalização, ou seja, a capacidade de compreender as intenções do filho. Quando está altamente envolvido, pode integrar esses dois sistemas, mostrando um funcionamento flexível e híbrido.

O mecanismo da sincronia, fundamental para a interação com o bebê desde o nascimento — por meio do olhar, do toque e da voz — também ocorre no cérebro do pai, da mesma forma que no cérebro da mãe.

No modelo de Ruth Feldman, o pai exerce um papel único no desenvolvimento da criança, contribuindo de maneira específica ao estimular a exploração, introduzir novidades, incentivar a flexibilidade e a adaptação, e auxiliar na construção da resiliência.

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Quanto mais o pai participa, mais seu cérebro se modifica biologicamente, mais se sincroniza com o bebê e maior é o impacto positivo no desenvolvimento da criança.

Na prática, para moldar o próprio cérebro e o do filho, é necessário um engajamento contingente, ou seja, uma presença real — não apenas estar por perto. É preciso segurar o bebê, olhar nos olhos, falar com ele, reagir aos seus sinais em tempo real, ajustar o próprio ritmo ao dele e entrar em sua “brincadeira”. Isso literalmente alinha os cérebros.

O pai pode oferecer mais estimulação, novidade e um certo grau de risco controlado, ajudando a criança a desenvolver coragem, flexibilidade e resiliência. O que realmente molda o cérebro do pai é a repetição, a rotina e a consistência. Assim, pequenos momentos diários valem mais do que grandes esforços ocasionais, como destaca Ruth Feldman.

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.