Como lidar com a intolerância alimentar?

Conhecer os alimentos que geram as intolerâncias alimentares mais comuns – à lactose, à frutose e ao glúten – é o primeiro passo; veja aqui

Intolerância à lactose

Lactose é um açúcar presente no leite. Na intolerância à lactose há deficiência de lactase, uma enzima produzida no intestino delgado que digere lactose – sua função é quebrar a lactose, um dissacarídeo, em dois açúcares simples: glicose e galactose. Estes são facilmente absorvidos através da parede intestinal e entram na corrente sanguínea. Se a pessoa não tem lactase suficiente para quebrar a lactose, ela viaja intacta através do intestino delgado até chegar ao intestino grosso, onde as bactérias locais (microbiota) atacam este açúcar em um processo conhecido como fermentação.

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Fermentação e água

A fermentação bacteriana produz gases, inchaço, distensão abdominal e náusea. Na sua jornada através do intestino delgado a lactose vai arrastando água por osmose. O excesso de água é responsável por sintomas como dor abdominal e diarreia. Esses sintomas gastrointestinais podem ser semelhantes e confundidos com alergia ao leite, só que neste caso o problema é a proteína do leite (caseína). A intolerância à lactose pode se apresentar em vários graus, e isso vai depender de quanta lactase o indivíduo produz.

Alguns intolerantes até conseguem tomar iogurte ou comer um pedaço de queijo.

Teste

Se for o caso, faça um teste: evite todos os laticínios durante uma semana. Depois disso, tome um copo de leite e se os sintomas voltarem (gases, diarreia e cólicas) há grande chance de você ser intolerante, porém o diagnóstico preciso é feito com o teste respiratório de intolerância à lactose. Pesquisadores sugerem checar se há doença celíaca em todos os pacientes com um teste respiratório positivo, pois a intolerância à lactose pode ser uma manifestação de intolerância ao glúten.

Intolerância à frutose

A frutose é consumida como um açúcar simples (monossacarídeo), presente em frutas e mel, ou composto (dissacarídeo) no açúcar de mesa ou sacarose, constituído por glicose+frutose. A capacidade de absorver frutose depende não apenas da quantidade consumida, mas também da presença de outros açúcares ingeridos ao mesmo tempo. A ingestão simultânea de glicose, galactose e alguns aminoácidos aumenta a absorção da frutose, enquanto o adoçante sorbitol diminui.

Excesso de consumo

Há 40 anos o consumo de frutose na Europa era de 5 g/dia, enquanto hoje chega a 25 g/dia, e nos EUA pode ultrapassar 80 g/dia. Com o aumento do uso de frutose em alimentos ultraprocessados, geralmente na forma de xarope de milho de alta frutose, a intolerância à frutose ficou em evidência. Alguns indivíduos parecem desenvolver sintomas de má absorção de carboidratos quando quantidades grandes de frutose são consumidas, particularmente se a frutose está na forma de açúcar simples, sem compor a sacarose.

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Gases, distensão abdominal e diarreia

Um excesso de frutose na dieta pode causar problemas. A frutose não absorvida chega ao intestino grosso e fornece material para a fermentação bacteriana rápida, com produção de gás (inchaço abdominal, dor, flatulência), e outras consequências fisiológicas, como um aumento da movimentação intestinal e da carga osmótica (atraindo mais água ao lúmen), causando diarreia, e também uma mudança negativa no perfil da microbiota (flora bacteriana). Alimentos ricos em frutose incluem sucos adoçados, geleias, chocolates, refrigerantes, doces, mel, frutas e alguns vegetais. Além dos sintomas, o diagnóstico pode ser feito pelo teste respiratório de intolerância à frutose. Evite produtos ultraprocessados para não exagerar no consumo de frutose!

Intolerância ao glúten

Diversos profissionais da área médica ainda acreditam que o glúten não faz mal, a não ser para os portadores de doença celíaca (1% da população). Nos celíacos o glúten é um verdadeiro veneno, danificando a parede do intestino e causando sérios problemas de saúde, como fadiga, má nutrição, baixa estatura em crianças, perda de peso acentuada, diarreia ou prisão de ventre, gases, anemia. No entanto, o glúten também pode ser um grande problema para pessoas com intolerância ao glúten não celíaca – estudos estimam que ela possa atingir 25% da população, em maior ou menor grau.

Inflamação

A hipersensibilidade ou intolerância ao glúten é um problema que cria inflamação no corpo, com possíveis consequências em todos os órgãos, incluindo o trato digestivo, cérebro, coração, tireoide, articulações, pele e sistema imunológico. Quando existe inflamação há edema (inchaço), o que prejudica a função celular, que fica mais lenta, os nutrientes não são absorvidos ou passam com muita dificuldade através da membrana celular alterada pelo inchaço. O organismo começa a procurar mecanismos para resolver este processo e libera diversos mediadores químicos, cujo excesso contribui ainda mais para atrapalhar a função celular. Como o fator que causa inflamação persiste cronicamente (a ingestão diária de glúten), as células ficam cada vez mais comprometidas em sua função.

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Trigo, cevada, centeio e malte

O glúten é uma proteína presente no trigo, cevada, centeio e malte. A aveia não contém glúten, ela pode ser contaminada no processamento. O glúten também é usado no preparo de diversos produtos como iogurtes, chocolates e achocolatados, embutidos, temperos, e está presente em algumas bebidas, como cerveja e gim.

Referências
*Pediatric Annals 2021. Lactose Intolerance in Pediatric Patients & Common Misunderstandings About Cow’s Milk Allergy.
*Annals Nutrition Metabolism 2018. Lactose Intolerance: Common Misunderstandings.
*Deutsch Arztebl International 2021. Consider Fructose Intolerance.
*Digestive Diseases Sciences 2020. Diagnostic Utility of Carbohydrate Breath Tests for SIBO, Fructose & Lactose Intolerance.
*Minerva Gastroenterology 2021. Is it time to rethink the burden of non-coeliac gluten sensitivity? A systematic review.
*Molecular Nutrition & Food Research 2021. Gluten-Free Diet in IBD: Time for a Recommendation?
*Microorganisms 2018. Leaky Gut, Leaky Brain?

Médica especializada em Nutrologia. Membro da ABRAN – Associação Brasileira de Nutrologia. Pós-graduada em Terapia Ortomolecular, Nutrição Celular e Longevidade – FACIS-IBEHE Faculdade de Ciências da Saúde de São Paulo e Centro de Ensino Superior de Homeopatia. Membro Titular da Sociedade Médica Brasileira de Intradermoterapia. Consultora com atuação em Nutrologia e Medicina Ortomolecular. CRM 52 301716 www.tamaramazaracki.med.br