Enfrentar miséria emocional nos faz renascer em esperança

Entenda como ter consciência de nossas misérias emocionais, reconhecê-las e acolhê-las nos faz renascer em esperança

Introdução

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“Vauvernagues delineou assim a natureza das Emoções…Desses dois sentimentos unidos, ou seja, o de nossa força e o de nossa miséria, nascem as maiores paixões, pois o sentimento de nossas misérias impele-nos a sair de nós mesmos e o sentimento dos nossos recursos encoraja-nos a isso e arrebata-nos de esperança.”
(Dicionário de Filosofia. Nicola Abbagnano. Abbagnano, Nicola, 4ª edição, São Paulo: Martins Fontes, 2000, p.315).

Estamos juntos outra vez para uma reflexão sobre nós e nossos vínculos. O tempo ficou estranhamente percebido e vivido para muitos de nós, nesse desafiador ano de 2022, e me incluo neste contingente. E somente agora, no apagar desse ano, pude me dedicar a esse espaço de troca.

Meu desejo é promover um bom debate de ideias sobre nossas emoções, suas “misérias”, como disse o filósofo francês Vauvernagues na epígrafe acima, e suas potencialidades que nascem de nossos recursos para enfrentá-las.

Vivemos em 2022, tempos sombrios de polarizações, ódios, divisões, separações, e dores emocionais e relacionais muito grandes. Mas diria que sobrevivemos, e estamos nos reorganizando emocional, racional e politicamente, para um futuro que pode ser esperançoso.

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E vou torcer para auxiliar, a quem deseje, via reflexão, a ter uma mirada mais aprofundada e quem sabe, libertadora, dos muitos medos que nutrimos neste ano que termina.

E “voilá” … como dizem os franceses, caminhemos, rumo aos novos cenários construídos a partir de nosso nos “esperançarmos” por dias e por melhores situações.

O desafio de acolher nossas misérias emocionais

Recebi, alguns anos atrás, um quadrinho para fixar na parede, contendo o seguinte texto: “Você não pode mudar o que se recusa a enfrentar”, que presente importante recebi, afinal, vivo e ajudo muitas pessoas a enfrentarem suas sombras, seus escuros, suas misérias numa busca de mudança terapêutica, a partir dos recursos que não identificamos que temos.

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Mas essa mirada no que recusamos enfrentar é “assaz” desafiadora, principalmente em nossos tempos de “sociedade espetáculo”, onde as pessoas precisam se ver e se mostrar sempre “bem” e “cheias de realizações positivas”. Como então, adentrar em nossos tanques e lagos sombrios? Como suportar essa privação de luz, de alegria, que nos faz ter contato com nossos erros, e com nossas decepções conosco e com os outros?

Creio que o primeiro recurso do qual precisamos fazer uso, é o da coragem de encarar as “densas águas de nossas misérias”. É isso, nós não somos só o que aparentamos ser, em nós se escondem densas águas que banham aquilo que escondemos de nós mesmos e dos outros.

Nosso tanque de densas águas é povoado por nossas mentiras, nossas invejas, nossos ódios, nossos ressentimentos, nossas mágoas e sobretudo, nossas decepções conosco e com o outro, e se aloja ali a nossa implacável posição de severos guardiões de nossos erros e dos erros alheios, nela parece não haver espaço para o perdão, para andar a segunda milha, os erros levam à culpabilização e ao castigo, para nós mesmos e para os que nos cercam.

Para enfrentar a miséria emocional é preciso enxergar além, transcender…

Numa sala de cinema escura, ao adentrarmos nela, não conseguimos distinguir nada, mas nossas células da retina têm a capacidade de se adaptar ao escuro, e lentamente seremos capazes de “ver no escuro”.

É esse o ganho de enfrentarmos nossas misérias, poderemos ver no escuro, no nosso submundo, esse em que vivemos, e que por não nos enxergarmos, como verdadeiramente somos, vivemos, a maior parte do tempo, projetamos nossas misérias nas pessoas que nos incomodam, naquelas que pensam, sentem e agem diferente de nós.

De posse desse corajoso exercício de inventarias nosso lado B, nascerá a condição da mudança: só posso mudar o que conseguir enfrentar, lembram?

A necessária caminhada para nos esperançarmos

Devo confessar que esse exercício de contato com nosso mundo sombrio, precisará contar com um/uma companheiro/a de jornada humana, que nos aguardará na superfície de nosso “lago das misérias”, com mãos cálidas, fortes e seguras, para nos içar deste lugar tão caudaloso.

Sua presença, suas palavras, suas perguntas e até seus silêncios, tornam “seguro” esse mergulho e esse retorno. Louvo ao Deus em quem creio, por todos e por todas as maravilhosas mãos que cuidaram e cuidam de meus mergulhos. E me sinto privilegiada, por poder estender as minhas mãos para os que me pedem ajuda para esse enfrentamento.

E também posso lhes assegurar que a volta desses profundos mergulhos, devolvem a nossa capacidade de sermos serenos, de acatarmos as nossas e as impossibilidades de nossas relações, nos sentiremos em paz conosco e com o outro. Seremos capazes de viver o autoperdão e de perdoarmos aos que nos têm ofendido.

Seguramente, nesse retorno às nossas possibilidades e esperanças, não cabem ilusões, não acataremos desrespeitos, nem abusos de nenhuma ordem, talvez tenhamos que nos separar de vínculos abusivos e que tornam nossa existência miserável. Teremos confiança e autoconfiança suficientes para fazermos isso, afinal desenvolveremos nosso papel de guardiões de nosso bem-estar, tornando-nos mais aptos a contribuir para o bem-estar do outro. Poderemos fazer novas escolhas relacionais não abusivas, que reflitam nossas potencialidades e ampliem nosso repertório de bem-estar.

E para terminar…

O convite está feito a todos e todas que lerem esse texto, é possível inventariar nossas misérias, como caminho de adentrar em nossos recursos e provisões pessoais para vivermos melhor conosco mesmos e com os outros.

E, como venho fazendo, ao longo de todos os textos dessa coluna, peço ajuda às artes, aos poetas, para terminar os textos, e hoje peço ajuda a essas pessoas que cantam suas misérias e as transformam em poemas, em canções, em telas, em passos de danças, e quero contar com o poema de Cora Coralina, para semear coragem e esperança para esse novo ano que despontará para cada um de nós.

Esperançar

Cora Coralina

Não sei… se a vida é curta
ou longa demais para nós,
mas, sei que nada
do que vivemos tem sentido,
se não tocamos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser:
o colo que acolhe,
o braço que envolve,
a palavra que conforta,
o silêncio que respeita,
a alegria que contagia,
a lágrima que corre,
o olhar que acaricia,
o desejo que sacia,
o amor que promove.

E isso não é coisa de outro mundo,
é o que dá sentido à vida.
É o que faz com que ela não
seja nem curta, nem longa demais,
mas que seja intensa, verdadeira,
pura enquanto ela durar…

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008