Existe alguma atividade física que produza efeitos semelhantes aos proporcionados pelo ecstasy?

por Danilo Baltieri

"A sensação de bem-estar provocada pela serotonina advinda da atividade física tem alguma semelhança com os efeitos que o ecstasy provoca no sistema nervoso?"

Continua após publicidade

Resposta: Não é uma tarefa simples comparar os efeitos de uma atividade saudável, como a prática regular e supervisionada de atividades físicas, com o uso de ecstasy, que usualmente produz efeitos altamente deletérios para o usuário.

Embora as atividades físicas e as substâncias psicoativas estimulem uma gama de neurotransmissores em comum, a forma como isso acontece parece ser bastante diferente.

O ecstasy provoca liberação desordenada e algumas vezes catastrófica de substâncias cerebrais, incluindo a serotonina, induzindo efeitos físicos e psicológicos nocivos e algumas vezes fatais. A atividade física regular provoca uma melhora global da saúde do praticante, modulando paulatinamente várias substâncias endógenas e promovendo bem-estar.

Lembro, aqui, que as atividades físicas devem ser adequadamente e regularmente praticadas e, sempre que possível, supervisionadas e prescritas por profissional competente. Também, à medida que um indivíduo começa regularmente a praticar atividades físicas, seu comportamento geral tende a se tornar progressivamente mais regrado e focado em outras atividades saudáveis.

Continua após publicidade

Embora alguns estudos experimentais e observacionais tenham já mostrado que atividades físicas regulares e adequadamente prescritas produzem efeito positivo na prevenção ao abuso de substâncias (como cocaína, álcool e tabaco) e também atuam como importantes adjuvantes no tratamento médico e psicológico do abuso ou da dependência já instalados, existem estudos epidemiológicos que não demonstram uma relação direta entre práticas regulares de atividades físicas e menor prevalência de problemas com o consumo de substâncias.

Esses achados aparentemente controversos retratam, dentre vários aspectos da dependência química, a heterogeneidade da população que padece de problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas. A evidência científica demonstra irrefutavelmente os efeitos positivos da prática de atividades físicas sobre a redução dos sintomas de depressão e ansiedade. Logo, entre aqueles que abusam e/ou são dependentes de substâncias psicoativas e manifestam sintomas de depressão e ansiedade, os efeitos da atividade física serão supostamente maiores. De qualquer forma, a prática regular e prescrita de atividades físicas contribui para a melhora global da qualidade de vida e deve sempre ser estimulada por e para todos nós.

Os estudos sobre o efeito da prática de atividades físicas sobre o consumo de drogas sempre consideram:

Continua após publicidade

a) a heterogeneidade da população que padece de problemas relacionados ao consumo de drogas;

b) as diferentes intensidades das atividades físicas que devem ser aplicadas para cada indivíduo;

c) a influência do ambiente e pares;

d) a adesão dos pacientes a programas mais individualizados de atividades físicas;

e) a conciliação entre a prática de atividades físicas e o treinamento de habilidades sociais, autoimagem e eficácia, bem como habilidades cognitivas.

De fato, muitos fatores apontam para o benefício das atividades físicas como um adjuvante no tratamento das dependências químicas em geral. Mais estudos deverão ser conduzidos para detectar a extensão desse benefício, sempre controlando o efeito das diferentes variáveis que influenciam o prognóstico.

Abaixo, aponto interessante referência sobre o tema

Goodwin RD. Association between physical activity and mental disorders among adults in the United States. Preventive medicine. 2003;36(6):698-703.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.