Impacto do exercício físico na cognição ao longo da vida

por Ricardo Arida

Pesquisas mostram uma relação entre a condição física e cognição ao longo da vida.

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Embora a maioria dos estudos que associam a atividade aeróbica na melhora da cognição envolvam adultos, estudos recentes mostram que maiores níveis de condicionamento físico também estão relacionados com maior desempenho acadêmico e aumento da função e estrutura cerebral em crianças.

Apesar desses achados interessantes, os sistemas de ensino, muitas vezes deixam de enfatizar a importância da atividade física durante o período escolar.

Uma publicação científica recente reforça esses achados

(1). Através de uma técnica de neuroimagem (ressonância magnética funcional) um estudo examinou a associação entre aptidão física e função cerebral em crianças.

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Especificamente, os pesquisadores concentraram nas diferenças da atividade cerebral de crianças com maior e menor capacidade física durante uma tarefa cognitiva. Aumento das regiões do córtex pré-frontal e parietal foram observadas em crianças com melhor condição física.

O estudo fornece uma nova visão sobre os benefícios cognitivos da aptidão física durante a infância. Sugerimos que as crianças com melhores condições físicas apresentam uma capacidade superior para ativar regiões do cérebro (frontal e parietal) importantes para o monitoramento, manutenção e elaboração de estratégias de controle cognitivo, habilidades importantes para o desempenho acadêmico em sala de aula. Os resultados fornecem mais evidências para mostrar a importância de um estilo de vida fisicamente ativo, visando melhorar o condicionamento aeróbico durante a infância.

Em relação aos efeitos do exercício físico no envelhecimento, os dados encontrados na literatura são também promissores. O declínio cognitivo é comum em pessoas com mais de 70 anos e apresenta impacto importante na qualidade de vida.

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Várias pesquisas têm sido realizadas para entender os fatores que contribuem para o declínio cognitivo, determinar os biomarcadores (indicadores biológicos) ou medidas neurológicas que podem ser usadas para prever essa condição; assim como verificar quais são as melhores intervenções terapêuticas para melhorar a saúde cerebral e a qualidade de vida dos idosos.

Nesse sentido, foi publicada recentemente uma revisão sobre como o exercício físico protege o sistema nervoso contra a demência. Esse estudo discute resultados de experimentos com animais, epidemiologia, dados de biomarcadores para a demência e o papel do exercício físico na sua proteção (2).
Na ultíma década, muitas pesquisas foram realizadas mostrando que o aumento da função cardiorrespiratória pode melhorar a cognição em idosos com e sem deficit cognitivo

(3). Já está bem documentado que o exercício físico diminui a mortalidade, melhora a função cardiovascular, diminui a incidência de doença coronáriana, de obesidade, de hipertensão, de diabetes, melhora a ansiedade e depressão, entre outros, e que todos esses fatores podem exercer uma ação protetora ao sistema nervoso.

Estudos epidemiológicos mostram efeitos positivos do exercício sobre a cognição. Por exemplo, mulheres com melhor condição física apresentaram menor declínio cognitivo durante um período de acompanhamento de 6 a 8 anos.

Outro estudo recente mostrou que mulheres que apresentavam um histórico de serem fisicamente ativas em qualquer momento da vida, especialmente durante a adolescência, apresentavam uma menor probabilidade de declínio cognitivo em idade avançada.

Uma questão importante a respeito da ação do exercício físico na redução da demência é a quantidade adequada de exercício. A literatura sugere benefícios cognitivos do exercício aeróbico, mas ainda não está claro se a duração do exercício e intensidade são variáveis importantes.

Em camundongos, períodos mais longos de exercício foram mais eficazes do que em períodos mais curtos atenuando as alterações neuropatológicas provocadas pela demência.

De qulquer forma, a atividade aeróbia é a mais indicada tanto para a melhora cardiorrespiratória com para a saúde cerebral.

Em conclusão, embora não esteja comprovado o uso de medicações como ação neuroprotetora sobre a demência, a literatura científica documenta benefícios significativo do exercício físíco realizado regular sobre a cognição e sobre o risco e a progressão da demência.

1- Graff-Radford NR. Can aerobic exercise protect against dementia? Alzheimers Res Ther 2011;3(1):6.

2- Lautenschlager NT et al. Effect of physical activity on cognitive function in older adults at risk for Alzheimer disease: a randomized trial. JAMA 2008:300:1027-1037.

3- Chaddock et al. A functional MRI investigation of the association between childhood aerobic fitness and neurocognitive control. Biol Psychol 2012;89(1):260-268.

Possui graduação em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1995), doutorado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1999) e pós-doutorado pela Universidade de Oxford-UK. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Neurociências e Fisiologia do Exercício Mais informações: www.ricardoarida.wordpress.com