Até que ponto uma mãe ou um pai podem — ou devem — se intrometer ou opinar na vida de filhos adultos?
Carl Gustav Jung formulou um conceito revolucionário para sua época sobre a relação entre pais e filhos: mais importante que a criação unilateral é a interação entre eles — um processo que favorece o desenvolvimento mútuo. Assim, Jung antecipou os conceitos atuais sobre a dialética do desenvolvimento humano.
Estudos recentes – da neurobiologia do desenvolvimento – mostram que a mente e sua função simbólica emergem da experiência dos relacionamentos interpessoais. É por meio das trocas afetivas que a criança constrói gradualmente modelos mentais sobre o mundo, organizando as experiências do dia a dia em padrões que moldam expectativas, afetos e formas de se relacionar. Sabe-se, hoje, que as relações podem tanto facilitar quanto dificultar a integração saudável das experiências em um sentido coerente de si.
Nos primeiros tempos de vida, a importância da relação bebê-mãe é inquestionável. Um apego seguro depende de uma mãe — ou cuidador primário — capaz de espelhar emoções e afetos de seu bebê, de modo que ele se sinta acalmado e assegurado. Esse processo é essencial para que o bebê desenvolva, aos poucos, a autorregulação e uma noção estável de si mesmo. É a primeira forma de amor vivenciada: o amor materno, que se constrói na reciprocidade das trocas afetivas.
A relação de maternagem pode ser exercida pela mãe, pelo pai ou por outro cuidador primário. Crianças que crescem em um ambiente de apego seguro desenvolvem um sentido de unidade e continuidade de si mesmas — uma linha interna que conecta passado, presente e futuro, sustentando relacionamentos consigo e com os outros.
Apego seguro
No apego seguro, a criança adquire um estilo de enfrentamento estável e flexível diante do estresse. A resposta atenta e amorosa dos pais ensina o bebê a confiar: ele aprende que pode pedir ajuda e que existem soluções. Internamente, os pais passam a ser representados como figuras poderosas e protetoras, quase idealizadas.
O desenvolvimento psicológico é, em grande parte, um processo de autonomia crescente. O adolescente precisa começar a se separar do mundo dos pais para crescer — o que explica muitos dos conflitos dessa fase. É nesse momento que se inicia a desidealização das figuras parentais: os pais, antes vistos como onipotentes, passam a ser percebidos como humanos, falíveis e limitados.
A psicologia contemporânea reconhece essa desidealização como um passo fundamental do amadurecimento. É um movimento difícil, mas indispensável: só quando o filho pode enxergar os pais como pessoas reais — e não como deuses — é que começa a construir uma identidade própria.
A psiquiatra junguiana Iraci Galiás propõe uma reflexão complementar: assim como os filhos precisam desidealizar os pais, os pais também precisam desidealizar os filhos. Ela descreve os principais indicadores de atraso nesse processo: a dificuldade persistente de confiar nas decisões dos filhos adultos e a interferência crônica em suas escolhas, relacionamentos e trabalhos.
Quando os filhos estão crescidos, a tarefa dos pais é recolher a maternagem e a paternagem para si mesmos. Essa tarefa requer o reconhecimento do envelhecer e a coragem de se desincumbir da função longa e complexa — embora gratificante — de cuidar dos filhos. É o momento de redirecionar o cuidado, transformando-o em autonutrição emocional e em aceitação da passagem do tempo.
Quando vemos um adulto excessivamente controlador, possessivo ou manipulador na relação com o filho ou filha, geralmente encontramos também um filho ou filha submisso, dependente e pouco capaz de se responsabilizar pela própria vida. É um laço de aprisionamento mútuo, no qual não houve espaço para a desidealização nem para o desapego de ambos os lados. O amadurecimento, tanto de pais quanto de filhos, depende desse movimento duplo: deixar ir e permitir-se ser livre. É o amor que, tendo cumprido seu papel de nutrir, encontra sabedoria no ato de se recolher, ou seja, o amor que também sabe se retirar.
