Meu marido é alcoólatra, dorme pelas ruas e tenho duas filhas pequenas. O que faço?

Por Danilo Baltieri

Depoimento de uma leitora:   

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“O que faço meu esposo é alcoólatra, ele fez tratamento no CAPS, passou quase quatro anos sem beber e agora teve uma recaída. Já vai fazer um mês que ele se encontra pelos bares, dormindo pelas ruas… Já fui buscá-lo, mas ele não quer voltar pra casa. O que devo fazer, pois tenho duas filhas pequenas e elas estão sentindo muito a falta dele?”

Resposta: Cerca de 90% dos portadores de problemas com o uso de bebidas alcoólicas apresenta recaídas em um período de 4 anos após o início do processo terapêutico. Isso significa que, infelizmente, as recaídas são eventos comuns e que devem ser diuturnamente dribladas pelos doentes e seus familiares.

Entre aqueles que obtiveram um tempo razoável de sucesso em termos de abstinência completa, as recaídas são comumente caracterizadas por dois notáveis aspectos:

a) A imprevisibilidade do portador diante da bebida

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Ou seja, o portador acredita que, após algum tempo de abstinência, já tem condições mentais e comportamentais para beber controladamente;

b) O fracasso em interromper o ciclo de consumo de bebidas uma vez iniciado
 
Seguramente, o desenvolvimento do alcoolismo tem raízes psicossociais, genéticas, biológicas, neurais. Assim, entre aqueles com problemas com o consumo de álcool, a perda do controle diante da bebida não é apenas situacional, mas permanece durante longo tempo (às vezes, para a vida toda).

A fissura ou “craving” pelas bebidas alcoólicas é um denominador comum entre alcoolistas, com gravidades variáveis para cada portador do problema. Fatores intrínsecos ao sujeito, como estados de ânimo e estresse, bem como fatores extrínsecos, como a exposição frequente às bebidas, devem ser sempre monitorados tanto pelo bebedor quanto pelos seus familiares e amigos conhecedores do problema.

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Também infelizmente, quadros como o reportado por você não são incomuns na prática clínica especializada. Quanto maior a gravidade da doença alcoolismo, maiores as chances de recaídas. E, consequentemente, quanto mais frequentes e graves são as recaídas, menores são as chances dos portadores e dos seus familiares acreditarem em algum sucesso terapêutico.

Nos procedimentos terapêuticos geralmente aplicados para portadores de problemas com o uso de bebidas alcoólicas, três são os denominadores comuns:

a) modificação do estilo de vida, objetivando a aquisição de habilidades cognitivas, afetivas e motoras para evitar situações de risco;

b) identificação dos propulsores internos e externos do uso;

c) desenvolver progressivamente estratégias de controle.

É verdade que estes três pontos acima são bem conhecidos entre os portadores de alcoolismo que fazem tratamento. E, apesar disso, é um fato infeliz que uma parte significativa deles não obtenha o sucesso almejado em um prazo curto ou mesmo médio, apresentando recaídas frequentes. O tratamento dessa doença é um processo de mão dupla, ou seja, os profissionais de saúde devem envidar enormes esforços para aperfeiçoar as estratégias terapêuticas e, de outro lado, os portadores e familiares devem seguir à risca as orientações dos profissionais.

Também é sempre importante enfatizar que existem diferentes fórmulas terapêuticas para o alcoolismo, incluindo abordagens farmacológicas, psicoterapêuticas e grupos de mútua ajuda, os quais devem, sempre na medida do possível e seguindo recomendações precisas, ser associados. Outrossim, abordagens ambulatoriais e em regime de internação (de curto, médio ou longo prazo) também devem ser sobrepesadas para cada caso e situação.

Quando um caso é refratário aos tratamentos convencionais, é recomendável:

a) integrar outros membros familiares que já conhecem o problema;

b) modificar a fórmula terapêutica, incluindo medicações por exemplo;

c) propor internação em clínica especializada, com o fim de interromper o padrão compulsivo do uso.

Você parece estar sozinha nessa história e isso poderá ser extremamente prejudicial para a sua saúde mental e física. Dessa forma, sugiro que outros controladores externos possam ser incluídos no processo do tratamento.
A exposição social a que seu esposo parece estar sujeito é uma indicação de internação. Assim, recomendo também que os profissionais médicos do CAPS onde ele faz o acompanhamento possam ser avisados. A intoxicação alcoólica é uma emergência médica; logo, de qualquer forma, combinando a exposição social com a intoxicação continuada, seu esposo deverá categoricamente ser conduzido até um setor médico de emergências clínicas o quanto antes.

Não perca tempo!

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

Professor Livre-Docente pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Professor de Psiquiatria do Centro Universitário Faculdade de Medicina do ABC. Pesquisador nas áreas de Dependências Químicas, Transtornos da Sexualidade e Clínica Forense.