Namorar ou transar com IA gera vínculo real?

O aumento de relacionamentos com chatbots –  programas de computador que usam inteligência artificial para simular conversas humanas – está levantando questões sobre apego, solidão, ciúme por parte do parceiro real – teria sentido isso? Isso seria escapismo ou poderia complementar as relações afetivas?

Resposta: Quando esse tema aparece, muita gente reage de forma imediata: ou acha absurdo, ou acredita que esse é o futuro inevitável das relações. Mas, quando olhamos com mais calma para o comportamento humano, a resposta costuma ser mais complexa.

Namorar ou fazer sexo com IA gera vínculo?

O primeiro ponto é entender por que esses vínculos com chatbots acontecem. Esses sistemas são programados para oferecer atenção constante, respostas empáticas e disponibilidade total. Diferente das relações humanas, que são cheias de nuances, conflitos e frustrações, a interação com a IA tende a ser previsível e acolhedora. Para quem se sente sozinho(a) ou emocionalmente cansado(a), isso pode ser muito atraente. Por isso, o apego pode sim acontecer.

Se uma pessoa conversa todos os dias, compartilha sentimentos e recebe respostas que parecem compreensivas, o cérebro responde emocionalmente a essa experiência. O vínculo psicológico pode se formar, mesmo sabendo que há um sistema por trás. O ciúme de uma parceria real também pode fazer sentido. No fundo, o que está em jogo não é a tecnologia, mas a intimidade.

Se alguém investe tempo e emoção nessas interações, especialmente quando envolvem fantasias ou confidências, a parceria pode perceber isso como uma forma de deslocamento da intimidade. Isso seria escapismo? Às vezes pode ser. Para algumas pessoas, a IA oferece uma relação sem risco de rejeição, sem conflito e sem frustração. Mas também pode funcionar como algo complementar, um espaço de reflexão, de expressão emocional ou até de exploração de fantasias. O cuidado começa quando essas interações passam a substituir as relações humanas. Porque as relações reais são desafiadoras justamente por envolverem a outra pessoa como ela é: com limites, desejos e diferenças. E é nesse encontro que desenvolvemos habilidades emocionais e sociais.

Assim, a questão principal reside no papel que essa interação ocupa na vida da pessoa. Se é um complemento, provavelmente não há problema. Mas se começa a substituir sistematicamente os vínculos reais, vale olhar com mais atenção. Afinal, nenhuma tecnologia substitui completamente a experiência de se relacionar com outro ser humano.

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Atenção!
Esta resposta (texto) não substitui uma consulta ou acompanhamento de uma psicóloga e não se caracteriza como sendo um atendimento.

Doutora em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, especialista em Neurociências e Comportamento pela PUCRS. Psicóloga, terapeuta sexual e de casais, coordenadora no atendimento psicológico de pacientes com disfunções sexuais no Ambulatório da Unidade de Medicina Sexual da Disciplina de Urologia da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC e coordenadora da Pós Lato Sensu em Sexologia: Novos Paradigmas em Saúde Sexual, na Faculdade de Medicina do ABC. Psicóloga, Idealizadora e Colunista no perfil “Conte com as 3” nas redes socias, que aborda temas como comportamento, sexualidade e carreira.