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Separei-me de meu marido, mas continuo codependente. O que faço?

Danilo Baltieri 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Danilo Baltieri

"Sou codependente química de meu ex-marido há 16 anos. Separei-me, estava conseguindo melhorar, mas recaí e estou sofrendo com a minha doença outra vez. Quero colocar um ponto final no meu sofrimento, ser livre, sair da depressão e da angústia. Chega, não quero mais, só quero viver."

Resposta: Tanto os quadros da síndrome de dependência de substâncias psicoativas quanto os quadros de codependência são entidades que provocam importante sofrimento para os portadores e também demandam complexo e prolongado manejo clínico. Também, em um relacionamento, é fundamental que o casal se sinta confortável, um com o outro; se isso não ocorre, o relacionamento sofrerá danos. Quando a esposa se torna codependente do marido dependente químico, o conforto preteritamente e presumivelmente sentido deixa de existir.

É frequente o cônjuge de um portador de dependência química tornar-se muito envolvido com o comportamento do parceiro e acabar aderindo aos mesmos processos mentais desastrosos. Os parceiros não dependentes sentem-se perdidos, às vezes negando o problema, e às vezes sentindo-se desesperados ou mesmo furiosos. Muitas vezes, as estratégias adotadas pelo parceiro não dependente para recuperar seu companheiro são inadequadas e apenas acentuam o problema (por exemplo, comprar bebidas para o dependente tomar em casa e não na rua, tentar experimentar maconha junto com o parceiro dependente para tentar sentir o mesmo "barato" que o parceiro tanto busca, pedir para o parceiro usar cocaína no banheiro somente à noite etc). Outrossim, alguns parceiros não dependentes tomam atitudes que são autodestrutivas, degradantes e que violam o próprio sistema de valores pregresso.

O companheiro não dependente tende a sacrificar sua própria identidade e realidade em favor de uma outra bastante diferente e, por vezes, caótica.

Comportamentos de quem é codependente

Por exemplo, é comum codependentes em relacionamento amoroso manifestarem os seguintes comportamentos:

a) desrespeitar seus próprios valores;
b) colocar-se em segundo plano;
c) encobrir comportamentos inadequados do parceiro dependente;
d) tentar aparentar calma, quando se está extremamente furioso;
e) evitar conflitos para manter o casamento e as aparências;
f) ser desrespeitado continuamente;
g) permitir que seus próprios valores morais sejam desprezados;
h) acreditar que não existem outras opções;
i) assumir responsabilidades demais;
j) estabelecer e reforçar a crença de que merece o que está acontecendo.

Geralmente, o companheiro não dependente inicia o processo de codependência, estabelecendo um sistema de crenças nocivo. Esse indivíduo não dependente avalia seu próprio comportamento, suas necessidades, sua história e seus relacionamentos pretéritos. A partir de então, desenvolve pensamentos que distorcem a realidade e amparam o comportamento do parceiro dependente. Por exemplo, sempre fui pouco desejável; logo, é melhor permanecer nessa forma atual do que em uma outra. Ou mesmo, minha mãe sempre manteve o relacionamento com meu pai, apesar dos seus problemas com o álcool; logo, tenho a mesma sina.

A mesma sensação de solidão e desamparo experimentado pelo dependente é vivido pelo parceiro codependente.

Queixas comuns do codependente

Consequentemente, muitos codependentes manifestam:

a) perda de amigos;
b) tristeza e pensamentos de ruína;
c) sonhos não usuais;
d) mudanças de apetite e padrão do sono;
e) falha no desempenho de tarefas usuais;
f) problemas financeiros;
g) comportamentos degradantes ou humilhantes.

Em situações assim, aliás nada incomuns, é recomendável e desejável que tanto o parceiro dependente quanto o companheiro não dependente iniciem um tratamento específico. Caso o parceiro dependente não o deseje, é fundamental que o companheiro não dependente faça seu tratamento. É essencial que pensamentos disfuncionais sejam reconhecidos e comportamentos não saudáveis possam ser modificados.

Infelizmente, muitos codependentes acreditam que conseguem domar a situação sozinhos. No entanto, um ciclo de comportamentos problemáticos e desenfreados pode já estar ocorrendo há algum tempo e o reconhecimento disso, bem como seu manejo, pode ser bastante salutar.

Você merece encontrar seu equilíbrio o mais rápido possível. A codependência também tem sinais e sintomas (como os citados acima) que causam prejuízos significativos para o portador; logo, vale muito a pena a busca por ajuda. Valorize-se.

Vya Estelar Responde

Vya Estelar quer colocar você, querido leitor, mais perto ainda de nós. Esse profissional irá responder dúvidas enviadas pelos internautas sobre um determinado tema. O psiquiatra Dr. Danilo Baltieri responderá questões ligadas à dependência química e vícios: drogas, álcool, cigarro e psicotrópicos. Os e-mails serão selecionados e editados de acordo com critério editorial do Vya Estelar, já que não será possível responder a todos. Seu nome e e-mail serão preservados.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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