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Reflita sobre o sentimento do outro na relação afetiva

Rosemeire Zago 01/01/2016 PSICOLOGIA
Que tal se ouvir e depois ouvir ao outro?

por Rosemeire Zago

Praticamente todos os dias recebo e-mails solicitando ajuda referente ao relacionamento afetivo. O que não é diferente no consultório. Mas sempre que fazemos uma queixa tendemos a ter a percepção apenas do que nós sentimos, raramente avaliamos o que o outro sente, sequer perguntamos, sequer o ouvimos. Ao ler o e-mail que repasso abaixo, percebi que muitas vezes o outro, a quem muitas vezes julgamos como insensível, sem amor, etc, também sofre, e muito, e com a intenção de proporcionar uma reflexão estou dividindo com você.

"Tenho pensado muito em tudo que tem acontecido. A vida da gente começou numa explosão de paixão, e muito pouco conhecimento um do outro. Passei boa parte da vida sendo cobrado pelas pessoas, no trabalho, em casa, na rua, na cama, no banho, no travesseiro, e agora, por nosso relacionamento. Aquilo que somos hoje é o resultado de uma vida, que nos deixa sequelas, às vezes passageiras, às vezes irreversíveis, e outras ainda demoram para que se volte ao normal.

Talvez pela falta desse histórico que temos um do outro, seja difícil a sua compreensão daquilo que resulto hoje. Mas isso não é problema seu. É meu. Para piorar, tem acontecido várias coisas, desrespeito no trabalho, falta de grana, sentimentos de culpa, autoestima baixa e nossas constantes brigas, indiferença.

O limite da dor, das sensações do corpo e do espírito é diferente para cada ser humano. Além do mais, depende do momento em que cada um se encontra. Uma caixa com uma laranja, não pesa nada, mas uma caixa com mil laranjas, pesa muito. A diferença está aí, para o espectador, aquele que nos vê de fora, jamais poderá enxergar o que há dentro da caixa, com isso, cada fato que acontece, para o espectador será apenas uma laranja. Mas este não tem ideia do quanto essa caixa está pesada para o outro, e essa simples laranja, pode ser o limite para que o outro venha ao chão. A culpa? Não é de ninguém. São apenas bagagens que adquirimos durante a vida, consequências, ou não, de escolhas que fizemos, e que lentamente e dentro do possível, vamos nos desfazendo delas, ou não. Há coisas que vamos carregar para sempre independente de nossa vontade, podemos até ignorá-las, mas estarão sempre lá.

Duas pessoas, já em idades avançadas quando se unem, dificilmente estarão com suas caixas vazias, apesar disso, a tendência será de olhar para o outro, como se este fosse mais forte, como se a caixa do outro estivesse mais vazia. É natural nos voltarmos para nossa caixa, só nós sabemos o quanto ela pesa e há quanto tempo estamos suportando o seu peso. O nosso companheiro, por mais que nos ame, terá apenas uma vaga noção desse peso. Porque cada ser é único e a dor que sentimos é intransferível. Nosso companheiro poderá ter por nós compaixão e respeito, mas a nossa dor, ele já mais poderá sentir. E na ânsia desvairada de buscar os nossos anseios, estamos nos afastando cada dia mais.

Nada estamos fazendo além de nos acusarmos. Mais do que nunca estamos olhando cada um para si próprio, acreditando que com isso estamos lutando pelo amor. Ao contrário disso, estamos lutando pela nossa desunião. Estamos tentando transformar um ao outro, perdendo o respeito, e isso não é um bom sinal. Para que uma relação dê certo é preciso um esforço de compreensão muito grande, o que nem sempre estamos dispostos, vai depender do quanto cada um está cansado, machucado. Independe do nosso amor pelo outro. É uma questão de sobrevivência.

Não consigo ser aquilo que você almeja, e até acho que estou muito longe disso. Sinto que estou sempre te deixando triste, por mais que pense estar fazendo mais e mais por você. Mas nada tem sido suficiente. Tenho certeza que você não está feliz. Que você esperava de mim um outro homem, que não sou e tenho certeza nem serei. Seu príncipe encantado está muito além de mim. Eu não consigo dar o que você quer. Não sei o quanto sua caixa está pesada, mas sei o quanto a minha está. Estou muito cansado, não sei se tenho forças ainda para continuar, já me machuquei, fui machucado e me deixei ser machucado demais. E também não quero mais machucar. Sim, nos gostamos, mas não dá pra continuar nos machucando. Não quero ser cobrado além do que eu me cobro e nem além do que eu posso dar. Não quero fazer ninguém infeliz, mas também não quero ser infeliz.

Desculpe-me pelo desabafo, mas é que estou chegando no meu limite e não estou conseguindo ver uma luz. Isso me deixa muito triste, me põe mais para baixo e faz com que eu me sinta muito incapaz. Estou a cada dia mais irritado e sem paciência, tenho noção clara disso. Talvez o único caminho seja o respeito um pelo outro. Aceitar mais, cada um como é, com seus limites, defeitos e qualidades. E se isso não for possível, pelo menos sejamos corajosos para admitir, que somos muito diferentes, e apesar do que sentimos um pelo outro não conseguimos estreitar nossas diferenças. Será mais honesto e melhor do que ficarmos aumentando as nossas feridas. Já sofremos bastante na vida, se não dá para ser feliz, que pelo menos estejamos em paz."

Espero que esse desabafo te faça refletir sobre sua própria vida, sua relação afetiva. Você verbaliza o que sente? Você realmente ouve o outro? O que você gostaria de dizer e tem guardado dentro de você? Que tal se ouvir e depois ouvir ao outro? E juntos pensarem num possível caminho? Qual o caminho que vocês seguirão? Isso só vocês dois podem descobrir. Abra-se para essa possibilidade. Uma relação é feita por duas pessoas, e a decisão em como vivê-la também deve ser um compromisso assumido pelos dois!




Rosemeire Zago

Psicóloga com abordagem junguiana com especialização em psicossomática. Desenvolve uma abordagem voltada para o autoconhecimento e criança interior.



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