Relações interpessoais pós-pandemia: sobra intolerância falta serenidade

As relações interpessoais estão permeadas de muita intolerância, impaciência e irritação nesse pós-pandemia; entenda por quê

Introdução

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“Numa espiritualidade que eu defino por esta responsabilidade por outrem – para o qual o ‘eu’ é eleito ou condenado, e chamado a responder pelo outro (e talvez seja propriamente isto misericórdia e caridade) – é preciso doravante que eu compare os incomparáveis, os únicos.”
(Emmanuel Levinás. Livro: Entre Nós. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2004).

Neste artigo, gostaria que refletíssemos sobre a falta de razoabilidade do nosso mundo atual, andamos muito intolerantes, impacientes e irritados.

Seriam esses, efeitos colaterais relacionais do nosso distanciamento social, imposto, pela pandemia por coronavírus? Ou sempre fomos assim, e só ‘pausamos’, por quase dois longos anos nossa comunicação ‘violenta’ com o outro?

Tenho muitas questões e algumas pistas de como podemos ‘re’-alcançar nosso processo de ‘comunicação não violenta’, e uma cultura de paz entre nós. Aliás, “Entre Nós’, é um precioso livro, escrito pelo filósofo francês Emmanuel Levinás, de onde extrai nossa epígrafe inspiradora, livro de complexa e difícil leitura, e mais difícil ainda prática a partir das reflexões nele contidas.

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Que sejamos iluminados e estimulados a pensar em caminhos para que tornemos, então, nosso mundo atual, seja ele o íntimo ou o ampliado, um lugar de acolhimento e compaixão.

O que aconteceu conosco no pós-pandemia?

Em outros artigos que escrevi em nossa coluna, no ano de 2021, ano que ‘parece que não vivemos’, falei sobre o incremento da violência, promovido no cérebro, animal e humano, por qualquer forma de confinamento.

Faz, portanto, muito sentido, incluirmos, como fonte de tanta intolerância e aspereza relacional, a colateralidade de um confinamento social, como o que vivemos, de forma tão longa.

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Parece que ao ‘sair da jaula’, ao tirarmos as máscaras de proteção (apesar de eu continuar as usando, aprendi a viver com elas, e assim, a me proteger de outros vírus e da poluição), damos um sorriso ‘estranho’, mostrando os dentes e a liberdade de apresentá-los, mas esse sorriso parece outra máscara.

Aliás, devo compartilhar com vocês, que como na rua e em ambientes fechados continuo andando de máscara, quando me encontro com conhecidos sem máscara, parece que eles me sorriem, fazendo uma estranha ‘careta’ para mim. Será?

Essa é a minha percepção sobre essa fase atual de finalização de pandemia pela Covid-19, que atravessamos. Parece que saímos, de certa forma, de nossos ambientes íntimos, com fúria, com ‘direito’ de sair, com certa raiva, pelo tempo de ‘detenção/distanciamento’ que vivemos. Será que pessoas egressas do Sistema Prisional, também sentem isso? Talvez sim.

Basta acompanhar um trajeto num veículo em nossa cidade (Sampa), as pessoas que dirigiam, antes da pandemia, costumavam ter certa tolerância quando o farol (semáforo) abria, e o veículo da frente não andava. Em outras situações, com velocidade reduzida em certos trechos de ruas e avenidas, certos condutores reduzem mais ainda sua velocidade, o que parece provocar um impulso de ódio no condutor que está atrás, ele então, ‘possuído’, engata uma ultrapassagem e faz questão de xingar com sonoro e audível palavrão o condutor ‘menos veloz’ que ele.

Fico perplexa e entristecida… enterramos mais de 660 mil pessoas em nosso país, nesses dois anos, mas a vida segue sendo ‘banalizada’, assim como as violências.

Em nossos vínculos de intimidade, voltamos a ser pessoas muito insatisfeitas com tudo, muito queixosas e críticas. O outro não pode ‘deixar os pratos ou xícaras caírem’, ao fazê-lo, é imediatamente repreendido, com uma aspereza que faz chorar, que humilha e constrange.

Precisamos nos curar de nós mesmos

O que fazer, então? Parece que temos outros ‘inimigos’ a combater, e eu diria que mais do que soldados inimigos, precisamos combater a nossa própria violência e arrogância, precisamos nos ‘curar de nós mesmos’.

Como reencontrar a serenidade em nossas inter-relações?

O primeiro e grande passo, é a possibilidade de fazermos uma ‘faxina de mente e alma’, tirarmos os ‘saltos de pessoas perfeitas e críticas’ e adentrarmos em nossas áreas pessoais sombrias e más, sim, cada um de nós, tem monstros e sombras que espreitam a nós mesmos e aos nossos vínculos.

Na sequência, proponho que visitemos nossas tristezas. Às vezes aquilo que apresentamos como ódio e raiva, nada mais é do que a tristeza não reconhecida, uma vez, que a tristeza baixa a potência de ação, ao passo que a raiva, nos projeta para fora.

Ficamos muito tristes por muito do que vivemos, nesses dois anos, que tal ‘sentar e chorar’? O choro é o escape da alma que sofre, é água quente que sai da nossa dor e que pode curar, simplesmente porque sai. Aprendemos, às vezes, que só os fracos choram. isso é uma grande fake new, chorar é humano, é animal, é resposta fisiológica e emocional à dor, e nos trata, nos suaviza e nos restaura.

Às vezes penso, que o excesso de antidepressivos e ansiolíticos que estão sendo prescritos, têm nos impedido de sentir, sobretudo as dores, e talvez essa ‘anestesia’, esteja nos dessensibilizando à nossa própria dor e à dor do outro. É tempo de buscarmos outras estratégias de tratamento, que ajudem sem ‘escamotear’ a dor: práticas e exercícios de Tai Chi, Yoga, e outras têm se mostrado grandes aliados terapêuticos aos nossos sofrimentos.

E por fim serenar… é aceitar ‘o que não pode ser mudado’, já nos ensina a Oração da Serenidade dos grupos de ajuda mútua. Precisamos descer de nossos palanques e pódios, e simplesmente nos esvaziarmos de tanta exigência de acerto, de tanta intolerância frente aos limites nossos e do outro.

E possamos nos utilizar desses e de outros recursos que nos ajudem a recuperemos nossa paz interior e relacional, quem sabe assim, contribuiremos outra vez para o mundo trocas relacionais orientadas para uma cultura de paz, de acolhimento, de compaixão e de respeito a nós mesmos e ao outro.

E para terminar…

Bem, de vez em quando escrevo com minhas vísceras e os textos saem densos, como esse saiu.

E para terminá-lo, fui buscar profundidade e leveza na voz e texto de uma canção da Flaira Ferro e quero compartilhar com você o lindo vídeo, de sua canção: Me curar de mim.

E, que após essa corajosa faxina de alma, saiamos, todos, mais disponíveis à luz que emana de cada um de nós, e que pode e precisa se encontrar com a luz que habita o outro.

Me Curar de Mim
Flaira Ferro

Sou a maldade em crise
Tendo que reconhecer
As fraquezas de um lado
Que nem todo mundo vê

Fiz em mim uma faxina e
Encontrei no meu umbigo
O meu próprio inimigo
Que adoece na rotina Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim (refrão)

O ser humano é esquisito
Armadilha de si mesmo
Fala de amor bonito
E aponta o erro alheio

Vim ao mundo em um só corpo
Esse de um metro e sessenta
Devo a ele estar atenta
Não posso mudar o outro

Eu quero me curar de mim
Quero me curar de mim
Quero me curar de mim (refrão)

Vou pequena e pianinho
Fazer minhas orações
Eu me rendo da vaidade
Que destrói as relações

Pra me encher do que importa
Preciso me esvaziar
Minhas feras encarar
Me reconhecer hipócrita

Sou má, sou mentirosa
Vaidosa e invejosa
Sou mesquinha, grão de areia
Boba e preconceituosa

Sou carente, amostrada
Dou sorrisos, sou corrupta
Malandra, fofoqueira
Moralista, interesseira

E dói, dói, dói me expor assim
Dói, dói, dói, despir-se assim

Mas se eu não tiver coragem
Pra enfrentar os meus defeitos
De que forma, de que jeito
Eu vou me curar de mim?

Se é que essa cura há de existir
Não sei. só sei que a busco em mim
Só sei que a busco.

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008